25-DEZ-2025
"Os «Autos Pastoris» são uma peça teatral, vulgarmente conhecida por «Presépio», sendo a tradição cultural mais antiga da Figueira da Foz.Esta peça teatral mostra-nos o nascimento de Jesus Cristo, e a sua adoração, num misto de religioso e pagão.Foi no princípio do século IV que se iniciou a divulgação do nascimento de Jesus Cristo, mas, na Figueira da Foz, os Autos Pastoris datam dos finais do século XVII ou início do século XVIII. Durante décadas perderam força, tendo ressurgido nos finais do século XIX e no início do século XX. Representavam-se na sede do Rancho do Vapor e atualmente a tradição sobrevive sobretudo à custa da Sociedade Filarmónica Dez de Agosto.A Sociedade Filarmónica Figueirense, forçada a interromper as representações devido à quase extinção da sua secção cénica, em consequência da derrocada da sede nos anos setenta, retomou recentemente o tradicional «Cortejo da Espera dos Reis Magos» e a representação dos «Autos Pastoris».Antes das salas de espetáculos, os Autos ocorriam nos chamados “palheiros”, ou “cardenhos”, armazéns amplos que albergavam grande número de espetadores, depois de limpos e ornados com verdura, louro e flores.Depois de alindados os “palheiros”, montava-se um palco, onde se construía no seu centro uma gruta ou “lapinha”. No restante espaço do palco construía-se uma colina revestida de musgo, por onde passavam os atores, representando pastores e romeiros, transportando oferendas, como cestinhos de queijos, rosários de pinhões, bolos, réstias de alhos e cebolas e pequenos brinquedos para o Menino brincar.Na “lapinha” encontrava-se o Menino e a Virgem Maria, São José, o burrinho e a vaquinha. Como pano de fundo, uma imagem pintada da cidade de Jerusalém.O guarda-roupa dos atores era diversificado, o pastor com a “palhoça” às costas, a pastora de colete vermelho e saia de veludo preto, muito ouro no peito e nas orelhas das raparigas, ouro emprestado, claro está.Os bancos da assistência eram corridos, sem costas, e o preço dos bilhetes ficava ao critério do público, colocando o dinheiro que bem entendesse numa mesa à entrada do salão.No final do espetáculo, guardava-se o dinheiro suficiente para as despesas e com o restante organizava-se uma bacalhoada para os atores.Nessa época os Autos não eram ainda divididos em quatro atos, como atualmente, e o espetáculo decorria desde o começo da noite até alta madrugada. Os atores podiam interromper o espetáculo, quando conveniente, para descansar, e o público aproveitava para devorar as fartas ceias levadas de casa, como filhoses, torta doce das Alhadas, vinho e jeropiga.Nos intervalos dos Autos discutia-se a atuação dos atores, comia-se, bebia-se, conversava-se e as senhoras chegavam mesmo a fazer renda.Com o passar dos tempos surgiram as salas de espetáculos, onde os Autos Pastoris foram representados.Entre 1885 e 1910 (25 anos) existiram na Figueira cerca de 20 associações recreativas que se dedicavam ao Teatro.Entre as principais salas de espetáculos recordamos o Teatro do Paço (1820), a Sociedade Filarmónica Figueirense (1842), o Teatro do Pinhal (1863) do Grupo Dramático Recreio Operário, o Teatro Natalense (1864) que pertencia à Sociedade Filarmónica Figueirense, o Teatro Príncipe (1874), a Sociedade Filarmónica 10 de Agosto (1880), o Grémio Lusitano (1882), o Teatro-Circo Saraiva de Carvalho (1884), o Grémio Recreativo (1888), o Teatro Garret (1893), o Teatro Afonso Taveira (1893), o Casino Peninsular (1895), o Teatro Caras Direitas/Teatro Duque (1907), o Teatro Parque-Cine (1907) o Salão Lisbonense (1908), o José Ricardo, o Teatro Chalet, o Teatro Operário, o Teatro Nicolau e o Teatro Trindade (1910).Algumas das antigas coletividades recreativas do concelho também apresentaram os Autos Pastoris, como a Sociedade Musical Santanense (1894), a Sociedade de Instrução Tavaredense (1904), o Grupo de Instrução Musical da Fontela (1921), o Grupo Recreativo Vilaverdense (1921), o Ateneu Alhadense (1924) e o Grupo de Instrução e Recreio Quiaiense (1934).O caráter profano foi introduzido no espetáculo e, para além das cenas clássicas do nascimento e da adoração do Menino, surgiu um ato dedicado ao Diabo e várias cenas críticas retiradas da realidade social figueirense, sempre com hilariante participação da assistência, recordando-nos os Autos Pastoris de Gil Vicente (1465-1536), representando diálogos cómicos de pastores.“Rindo, castigam-se os costumes” é, talvez, uma das frases mais famosas de Gil Vicente, isto é, por meio do humor é possível corrigir os costumes, denunciar a hipocrisia da sociedade, restabelecer a moral e a religiosidade, como acreditava o teatrólogo.Nas sociedades recreativas burguesas, como a Assembleia Figueirense, o Ginásio Figueirense e o Grupo Dramático Figueirense, os autos pastoris populares e cómicos eram substituídos pelas operetas e pelas comédias, muitas delas de autores locais.Nos finais de novembro iniciavam-se os ensaios, diariamente, até à véspera de Natal, dia da primeira representação, onde muitos se reencontravam, alguns vindo de longe, complementando as reuniões familiares nos lares e, “para ver os presépios vivos, caía meio mundo na Figueira”.“Houve tempos - e não vão elles muito longe! - em que aqui, n’esta minha terra querida, se representava o presépio na noite de Natal e n’outras da época que, de geração em geração, nos tem vindo a relembrar a Natividade de Christo. Era uma distracção simples, mas reunia ella muitas familias n’um convivio fraternal, alegre, que nos proporcionava umas horas de satisfação íntima”.“Ia-se ao presepio, revia-se a gente na garbosidade das moças tavaredenses, vestidas a capricho no traje de pastoras, e admirávamos-lhes também as habilidades scenicas, porque ellas quasi sempre debutavam n’estes espectaculos... E d’ali, os felizes da sorte, regressavam ao lar, e lá iam rodear a certã onde fervia o azeite com os tradicionaes filhós, ou onde o forno transbordava com dovces tortas!”“Era assim que se passava por aqui esta feliz quadra do Natal. E hoje, se é certo que ao estomago dos afortunados não faltam as abundantes consoadas com que se celebra a data natalícia, há, no entanto - triste é dizê-lo - a falta de qualquer espectáculo que nos recreie o espírito e que venha quebrar um tanto a insipida monotonia d’estas longas noites de Dezembro”. (Gazeta da Figueira – 12-12-1903- retratando o Presépio na terra do teatro)."Crónica de Fernando Curado